Cada vez mais a música rompe rótulos e transcende seus próprios nichos no que tange a sua produção. O metal, principalmente dentro de alguns dos seus subgêneros como o Black e o Doom, deu a luz discos e momentos sui generis dentro dos seus círculos, dando um nó na cabeça da mídia especializada e do público também. Mesmo que na sua grande maioria esses discos tenham provocado raiva nos seus fãs, o fato de arriscar é o que faz com que os resultados muitas vezes sejam verdadeiros e, consequentemente, relevantes e duradouros. Boa parte dessa discografia está sendo relançada agora no formato vinil, em pequenas tiragens. Dois exemplos expressivos desse caminho da construção em busca do seu próprio som são o Anathema e o Ulver, que nasceram mais pesados e que experimentaram, cada um ao seu modo, sonoridades completamente diferentes que são a marca principal dos seus trabalhos na últimas décadas. Segundo essa lógica, existe um momento (entre 1995 e 2003) em que existiu uma ruptura interessantíssima na música extrema, muitas vezes sendo ridicularizada pela mídia especializada nas resenhas dos discos (eu particularmente sempre buscava ouvir algo com uma nota menor que 7 nas publicações da época, que estavam muito mais interessadas em covers bem feitos das bandas mainstream do que em algo genuinamente novo).

Muitas bandas criaram trabalhos memoráveis nesta época pois ousaram fazer diferente mesmo indo contra a saúde comercial da banda. Boa parte desses discos já fizeram 20 anos e são cultuados até hoje pelo público, tendo reconhecimento em um cenário cada vez mais aberto à inovações e mostrando que a música não tem fronteiras. Um caso que fez muito barulho na época foi o Paradise Lost, que logo após o brilhante Draconian Times, conquistando uma grande popularidade dentro do metal,  foi do doom para o synth no One Second e principalmente no Host, que abriu um caminho para um contrato com a EMI, mas que lançou a banda num limbo só foi superado recentemente, com o lançamento do seu último trabalho The Plague Within. Ainda assim, nos shows atuais a banda sempre inclui no set algumas músicas dessa fase mais eletrônica, contando a sua história por completo, sem esconder quaisquer capítulos.

A gente naturalmente coloca carimbos em tudo que consome. Muitas vezes não percebemos as mudanças profundas que uma mesma discografia possui – assim como a literatura – cada trabalho novo deve ser uma experiência diferente do anterior, mas com a mesma alma. Em tempos líquidos, misturar é lei.

Muitas vezes o fato de não ter uma distorção pode deixar a música muito mais pesada, gerando diferentes métodos para causar as catarses que tanto gostamos. E a fidelidade do artista a si mesmo é fundamental para que se siga produzindo da maneira mais honesta possível. Isso é o que vai manter a sua relevância e fazer com que este humilde blog seja sempre público de quem ousa fazer diferente.